Nossa carta sobre homeschooling saiu no Estadão
Se você é mãe homeschooler, provavelmente já passou por isso: abrir o jornal (ou o celular) e dar de cara com um texto dizendo que a escola é o único lugar onde seu filho vai aprender a viver em sociedade.
É incômodo, não é? Porque você sabe o que acontece na sua casa. Você vê seu filho lendo, aprendendo, convivendo com pessoas de todas as idades, e por vezes, à frente de muitas outras crianças. E aí vem alguém dizer que isso não é suficiente.
No dia 5 de julho, o jornal O Estado de S. Paulo publicou o artigo Sobre o que só existe na escola, da jornalista Renata Cafardo. O texto defende que a escola é "o melhor treino para viver em sociedade" — como se não existisse outro caminho possível.
A nossa diretora Barbara Lores leu, e fez o que a gente acredita que precisa ser feito: respondeu. A carta foi aceita e publicada na seção Fórum dos Leitores do Estadão, no dia 10 de julho. Muita gente acredita que não há espaço pra liberdade de opinião, e por isso, nem tenta defender o que acredita. Essa carta é a prova de que o espaço existe e que só precisamos dar o primeiro passo para ocupá-lo.
Confira a notícia e a carta na íntegra:

Carta:
Liberdade Educacional
Sobre o que só existe na escola (5/7, A17), de Renata Cafardo, convida à reflexão sobre a pluralidade na educação. No entanto, um pouco de contexto histórico ajudaria a ampliar o debate sobre o homeschooling. A autora afirma que a escola é “o melhor treino para viver em sociedade”, pois coloca crianças em contato com colegas que pensam e agem de forma diferente. Mas essa não é a única visão possível. Vale lembrar que a escolarização obrigatória, no Brasil, é relativamente recente. Antes de sua expansão ao longo do século 20, as pessoas também aprendiam a conviver, trabalhar e participar da vida em sociedade. Outro ponto que merece reflexão é a ideia de que a escola representa um ambiente de diversidade. Na prática, a sala de aula costuma reunir crianças da mesma faixa etária, que vivem na mesma região, pertencem à mesma classe social e usam até as mesmas roupas. Será que existe algum outro momento da vida em que frequentemos um ambiente tão uniforme? Isso, sim, é algo que “só existe na escola”. Como esse ambiente poderia preparar para a vida em sociedade se, em nenhum outro momento, encontraremos um cenário assim? O homeschooling pode ser uma oportunidade de ampliar, e não restringir, as experiências das crianças. Elas podem ter mais tempo para se dedicar aos esportes e às artes, em vez de passarem o dia entre quatro paredes, porque a educação domiciliar permite que a criança tenha atenção personalizada e também mais tempo para perseguir seus interesses. Ela também pode permitir que estudantes com neurodivergências ou outras necessidades recebam uma atenção mais individualizada. Essa discussão não é nova: em 1994 foi apresentada a primeira proposta para regulamentar o homeschooling no Brasil. São mais de 30 anos de omissão do Legislativo, enquanto famílias continuam vivendo sob insegurança jurídica e sendo processadas por exercer seu direito à liberdade educacional. Em 2018, o STF deixou claro que a educação domiciliar é compatível com a Constituição, mas que sua implementação depende de lei. A Câmara já fez sua parte ao aprovar um projeto de regulamentação, e é positivo que o Senado tenha dado um passo adiante ao aprovar o requerimento de urgência para votação. A verdade é que o homeschooling sempre foi uma realidade no Brasil e no mundo, mas o acesso a essa modalidade não é igual para todos. A regulamentação poderia democratizar o acesso e contribuir para estabelecer critérios de qualidade e segurança para essa escolha. Não se trata de defender que o homeschooling seja para todos, assim como a escola tradicional também não precisa ser a única opção. Se admitimos que, como propõe a jornalista, “há muitas formas de resolver o problema de Matemática”, talvez seja hora de admitir também que existem muitas formas de enfrentar o problema da educação – e que a liberdade de escolha das famílias merece, enfim, ser respeitada.
Barbara Lores
Curitiba











