Por que as crianças precisam de magia?

Texto de Joshua Gibbs publicado originalmente pelo CIRCE Institute. Tradução: Academia Dulcis Domus 

 
Aluno: Por que você deixa seus filhos lerem os livros do Harry Potter? 


Gibbs: Por que não? 


Aluno: Santo Agostinho não teria deixado seus filhos lerem livros que fazem dos feiticeiros, heróis. Ele teria queimado esses livros, assim como os cristãos de Éfeso queimaram seus livros de magia em Atos 19. 


Gibbs: Finalmente! Um bom argumento contra a série Harry Potter. 


Aluno: O que você quer dizer com “finalmente”? 


Gibbs: A maioria dos argumentos contra os livros de Harry Potter é horrível. Pessoas sãs falam como se crianças que leem O Prisioneiro de Azkaban fossem começar a sacrificar seus animais de estimação ao diabo, o que é obviamente absurdo. No entanto, você realmente tem um ponto. Você está certo. Santo Agostinho certamente não deixaria Adeodato ler A Pedra Filosofal. Ele teria jogado o livro direto nas chamas. Não vou discutir com você sobre esse ponto. 


Aluno: Normalmente, você não é do tipo que discordaria de Santo Agostinho à toa. 


Gibbs: Bem, eu não discordo dele nesse caso. 


Aluno: O que o senhor quer dizer com isso? 


Gibbs: Santo Agostinho viveu em uma época em que o homem comum, que possuía livros de magia, provavelmente também havia sacrificado alguns animais aos demônios. O sacrifício de animais havia sido proibido recentemente pelo governo romano, embora um forte remanescente de pagãos ainda vivesse na época de Santo Agostinho e eu ficaria surpreso se eles não tentassem apaziguar seus deuses secretamente. 


Aluno: O que os sacrifícios de animais têm a ver com a série Harry Potter? 


Gibbs: O argumento que você deu contra a série Harry Potter foi totalmente baseado em percepções antigas e tardias da magia. Naquela época, a magia estava intrinsecamente ligada à cosmologia pagã, mas isso simplesmente não é mais verdade. O tipo de pessoa que possuía livros de magia no século IV não se parece em nada com o tipo de pessoa que possui livros que fazem referência à magia atualmente. Simplificando, possuir um livro de Harry Potter hoje não é um sinal de fidelidade ao demônio. 


Aluno: Por que não? 


Gibbs: Porque o diabo não se importa mais com magia, pelo menos não onde você e eu vivemos. Ele está muito mais interessado em convencer as pessoas de que nem a magia, nem os milagres são possíveis. Por essa razão, imagino que o demônio seja ainda mais contrário aos livros de Harry Potter do que você. 


Aluno: Eu duvido. Eu me oponho bastante a esses livros. 


Gibbs: Como assim? 


Aluno: Porque a bruxaria é um pecado e esses livros fazem com que a bruxaria seja virtuosa. O que é mau, esses livros chamam de “bom”. 


Gibbs: O que é “bruxaria”? 


Aluno: A prática da magia. 


Gibbs: E o que é magia? 


Aluno: A invocação do poder demoníaco. 


Gibbs: Essa é realmente a forma como a palavra “magia” é comumente usada hoje em dia? 


Aluno: Se não for, então o demônio se escondeu por trás de um uso casual da palavra. 


Gibbs: Então, quando uma jovem diz: “Nós dançamos e ele me beijou pela primeira vez. Foi mágico”. O diabo está se escondendo por trás das palavras dela? 


Aluno: Não, nesse caso, ela está usando a palavra como uma metáfora. 


Gibbs: E por que o mundo ocidental determinou que essa é uma metáfora adequada? 


Aluno: O mundo ocidental se esqueceu de Deus. 


Gibbs: O que a jovem quer dizer quando afirma que a dança e o beijo foram “mágicos”? 


Aluno: Ela quer dizer que o beijo parecia algo além deste mundo, não limitado pelas regras normais da realidade. 


Gibbs: Muito bem. E você nunca se depara com coisas como essas — coisas que parecem vir de fora deste mundo? Coisas que não são limitadas pelas regras normais da realidade? 


Aluno: Não me vem nada à mente. 


Gibbs: Que lamentável! Nada? 


Aluno: Não. Mas não vejo por que isso é lamentável. 


Gibbs: Você nunca se encantou com uma bela canção ou com a beleza de uma mulher? 


Aluno: Não. Simplesmente não é assim que eu descreveria isso — pelo menos, não mais. 


Gibbs: Você se sente tão ofendido por músicas “encantadoras” e mulheres “encantadoras” quanto se sente pela magia dos livros de Harry Potter? 


Aluno: Admito que nunca relacionei as coisas “encantadoras” com suas raízes mágicas antes. 


Gibbs: Por que não? 


Aluno: Essas palavras são simplesmente muito comuns. 


Gibbs: E porque ninguém no mundo faz referência a coisas “encantadoras” com o objetivo de adorar o demônio. Essas palavras tinham um significado muito, muito diferente em uma época anterior, mas seu significado mudou bastante. 


Aluno: No entanto, essas palavras mantêm pelo menos parte de seu significado anterior. 


Gibbs: Claro, e é por isso que ainda as usamos. 


Aluno: E, ao manter parte de seu significado anterior, essas palavras ainda são ímpias. 


Gibbs: A magia tem raízes pagãs. Não vou discutir com você sobre isso. Os cristãos devem se abster de absolutamente tudo que tenha raízes pagãs? 


Aluno: Como o quê? 


Gibbs: Você se opõe aos Jogos Olímpicos? 


Aluno: Claro que não. 


Gibbs: Apesar do fato de os Jogos Olímpicos terem sido originalmente realizados em homenagem a Zeus?

 

Aluno: Os Jogos Olímpicos modernos não são realizados em homenagem a Zeus. 


Gibbs: As referências modernas à magia também não o honram. Zeus não está mais presente nas Olimpíadas modernas do que em A Pedra Filosofal. Você se opõe aos teatros? Às peças? Você está ciente, é claro, de que o imperador cristão Teodósio encerrou as Olimpíadas e fechou os teatros no final do século IV, porque determinou que eles estavam intrinsecamente ligados à adoração dos deuses? 

 

Aluno: Isso é muito bom, mas absolutamente ninguém nas Olimpíadas de hoje corre para a glória de Zeus. 


Gibbs: Concordo. O significado das Olimpíadas mudou. 


Aluno: Entendo seu ponto de vista, mas a magia moderna ainda envolve feitiços, poções e encantamentos. 


Gibbs: E o revezamento moderno ainda envolve corredores, bastões e uma grande pista oval. Acho incrível que você esteja tentando relacionar a magia realizada na série Harry Potter com a magia realizada pelos antigos pagãos. Parece que você não sabe nada sobre a magia antiga, que era uma arte vulgar, sangrenta, brutal, sem coração e escravizadora, e não o tipo de coisa com que crianças felizes brincariam durante uma tarde antes de sair para o jantar. 


Aluno: O fato de as crianças poderem brincar alegremente com uma coisa não significa que essa coisa seja boa. O coração é enganosamente perverso, e todos nós nascemos em inimizade com Deus. 


Gibbs: Há um segundo, o fato de um grupo de crianças poder correr alegremente em uma corrida de revezamento sem pensar em Zeus, era prova suficiente de que os Jogos Olímpicos não eram mais demoníacos. 


Aluno: Bem, talvez as Olimpíadas também sejam demoníacas. 


Gibbs: As tragédias também são demoníacas? A palavra tragédia significa “canto do bode”, uma referência ao animal sacrificado a Dionísio antes das peças gregas, que eram todas apresentadas em sua homenagem. Devemos acabar com o teatro também? E com os filmes? Vamos ficar sem Hamlet? 


Aluno: Você tem um argumento muito bom, mas não estou convencido. Você está tentando me convencer de que, só porque não podemos extirpar tudo o que é pagão da nossa sociedade, não devemos mexer um dedo para remover algo pagão. Estou simplesmente argumentando que não dar livros de Harry Potter às crianças é muito fácil e que, ao não expor seus filhos à magia, você honra seus antepassados cristãos que acreditavam que a magia era uma grande praga para a criação. 


Gibbs: Em sua biografia de São Francisco de Assis, Chesterton sugeriu que a Idade Média foi um período de mil anos de jejum, necessário porque grande parte da vida humana havia sido contaminada pelo que é demoníaco. Em outras palavras, a monotonia e a tristeza da Idade Média foram a Quaresma, como Cristo abandonando as coisas boas do mundo para se preparar no deserto para a tentação do diabo. Depois de mil anos, no entanto, todas as coisas que haviam sido manchadas por poderes espirituais malignos foram limpas dessas manchas, e os homens estavam livres para desfrutá-las novamente em sã consciência. De todas as instituições e coisas manchadas por demônios, argumentou Chesterton, a própria Terra foi a maior vítima, porque os demônios haviam sequestrado a bondade da natureza por milhares de anos antes de Cristo. Os demônios roubaram os dons de Deus e os mantiveram como reféns. Os demônios distorceram a natureza e corromperam a compreensão e o amor adequado do homem pela natureza. Cristo veio para recuperar o mundo, mas essa recuperação levaria algum tempo. 


Aluno: Não podemos ser gratos pela natureza sem invocar a adoração de demônios? O pôr do sol não pode ser simplesmente “bonito”? Por que eles precisam ser “mágicos”? 


Gibbs: Nos tempos antigos, a magia era a escravidão da natureza ao deus deste mundo, o demônio. Mas nestes últimos dias, a magia é a restauração da admiração e do agradecimento pela natureza. Magia, encantamento, charme, coisas encantadoras, coisas fascinantes... essa é a linguagem que usamos para descrever coisas naturais que são subitamente iluminadas por uma glória sobrenatural e por um poder e uma beleza transcendentes e sobrenaturais. A magia não é mais uma arte praticada. É uma forma de ver o mundo, uma forma de agradecer pelo mundo. Os livros de Harry Potter não estão enganando as crianças para que se associem a demônios. Esses livros estão restaurando o prazer das crianças na escola depois que os materialistas e secularistas transformaram as escolas em fábricas sem Deus. A magia é agora uma arma de alegria para combater Darwin, Dewey e todos os outros profetas da desgraça que ultimamente têm tentado tirar a maravilha do mundo. Se Santo Agostinho estivesse vivo hoje, ele não queimaria os livros de Harry Potter. Ele queimaria todos os álbuns de Katy Perry e Taylor Swift que lançaram feitiços de banalidade entorpecente em moças inocentes. Ele destruiria todos os espetáculos cinematográficos empobrecidos intelectualmente que hipnotizaram e hipnotizam nossos jovens. 


Aluno: O senhor realmente acha isso? 


Gibbs: Há dois tipos de cristãos hoje em dia. Um tipo de cristão acha que o outro está comprometido com o paganismo. E os cristãos que são considerados pagãos demais acreditam que o outro tipo de cristão está comprometido com o ateísmo. Você pode adivinhar de que tipo eu sou. 



Aluno: O senhor está admitindo que sua adoração a Deus está contaminada pelo paganismo? 


Gibbs: Depois de refletir sobre a extrema pobreza de imaginação que acomete os homens modernos desencantados, C.S. Lewis escreveu: “Às vezes me pergunto se não teremos de reconverter os homens ao verdadeiro paganismo como uma preliminar para convertê-los ao cristianismo”. Não estou muito preocupado com o fato de minhas filhas acabarem adorando Zeus ou Júpiter, mas sim com o fato de acabarem adorando sua própria autonomia, porque muitos cristãos hoje em dia estão enfeitiçados pelo espírito materialista de nossa época e não conhecem outra realidade. Quando os cristãos lutam contra a magia, demonstram que estão radicalmente equivocados na compreensão de onde realmente está a ameaça do nosso tempo. Mas meus filhos saberão que o mundo é encantado pelo próprio Jesus Cristo. 

Por Barbara Lores 10 de setembro de 2026
No último texto aqui do blog, falamos sobre os benefícios da leitura em voz alta e como os audiolivros podem ser nossos aliados nessa hora. Se você ainda não leu, confira aqui Quer que seu filho escreva bem? Comece pelo que ele ouve. Hoje, trazemos as nossas indicações de audiolivros por faixa etária, afinal, não são só os pequenos que podem aproveitar desse recurso tão presente em nosso cotidiano. Confira as nossas indicações: Para os pequeninos — 2 a 5 anos Histórias mais curtinhas, com diferentes narradores e, em alguns casos, músicas que tornam a experiência ainda mais divertida para iniciantes. Coleção Disquinho As Mais Belas Histórias Infantis (Conte Outra Vez) Clássicos Disney Para Ler e Ouvir Para os não tão pequenos — 4 a 8 anos Aqui já entram histórias mais longas, muitas vezes divididas em capítulos. São ótimas para acompanhar durante alguns dias e criar o hábito de ouvir uma narrativa mais extensa. Peter Pan — J. M. Barrie As Crônicas de Nárnia — C. S. Lewis A Fantástica Fábrica de Chocolate — Roald Dahl Matilda — Roald Dahl No Mundo do Infinitamente Pequeno Para os crescidinhos — a partir de 9 anos Para esta faixa, podemos começar a oferecer enredos mais complexos, com narrativas que exigem maior atenção aos detalhes do contexto. A Volta ao Mundo em 80 Dias — Júlio Verne O Hobbit — J. R. R. Tolkien E aqui vai uma observação: apesar de estar nesta seção, O Hobbit costuma conquistar também crianças menores , especialmente quando já estão familiarizadas com histórias mais longas. O Jardim Secreto — Frances Hodgson Burnett Mestre Gil de Ham — J. R. R. Tolkien A Princesinha — Frances Hodgson Burnett Dica bônus Se você costuma ouvir audiolivros no carro, uma opção prática é o YouTube Premium , que permite baixar os conteúdos para ouvir offline, sem consumir seu pacote de internet. E não, não estamos ganhando nada para fazer propaganda aqui. É só uma dica mesmo! 😄 Porque, convenhamos, poucas coisas são mais frustrantes do que uma propaganda interrompendo a história justamente na hora mais interessante, não é?  E você? Que outro audiolivro incluiria nesta lista? Conte nos comentários — queremos descobrir novos tesouros para acrescentar à nossa coleção!
Por Barbara Lores 14 de agosto de 2026
Queremos que nossos filhos tenham um repertório amplo, um vocabulário rico e sejam comunicadores competentes. Queremos que saibam escrever bem, expressar suas ideias com clareza e encontrar as palavras certas para dizer aquilo que pensam. Mas, às vezes, esquecemos de uma verdade bastante simples: para algo sair da boca ou do papel, primeiro precisa estar dentro da cabeça. Não posso pedir a alguém que fale mandarim se nunca teve contato com o mandarim. Da mesma forma, não podemos esperar que uma criança produza textos com uma linguagem rica e sofisticada se ela ainda não teve a oportunidade de ouvir e armazenar bons modelos de linguagem. É o famoso input antes do output : aquilo que a criança produz depende, em grande medida, do repertório que foi construindo. Bons leitores se tornam bons escritores? Talvez você já tenha ouvido esta frase: “Quem lê bem escreve bem.” Existe uma verdade aí. Crianças que leem bastante certamente têm uma vantagem importante no desenvolvimento da escrita. Mas transformar essa ideia em uma regra — como se a boa leitura levasse naturalmente e inevitavelmente a uma boa escrita — é um equívoco. Basta observar uma sala de aula. É perfeitamente possível encontrar crianças que leem com fluência, compreendem bem aquilo que leem e, ainda assim, têm dificuldade para escrever com clareza, correção e riqueza de linguagem. Isso acontece porque ler e escrever são habilidades relacionadas, mas não idênticas . Andrew Pudewa, fundador do Institute for Excellence in Writing (IEW), esclarece que a ntes de tudo, precisamos considerar o que significa ser um bom escritor. Ser competente na escrita significa ser capaz de comunicar ideias por meio de uma linguagem clara, correta e adequadamente sofisticada. Brilhantismo, criatividade e originalidade são ideais desejáveis, mas estão muito além daquilo que chamamos de competência. Competência significa possuir as habilidades básicas necessárias para ter êxito na vida acadêmica, profissional e no mundo do trabalho. Diante da grande carência dessas habilidades, mais do que nunca, a competência deve ser o principal objetivo de pais e professores. Por definição, escritores competentes são capazes de usar a linguagem de maneira correta e eficaz. Há um fato simples e imutável sobre o cérebro humano: não podemos tirar dele aquilo que não estava lá desde o início. À parte qualquer inspiração sobrenatural, os seres humanos — e as crianças, em particular — não conseguem produzir pensamentos ou conceitos que antes não tenham experimentado e armazenado. Em outras palavras, não podemos pensar um pensamento que não possuímos previamente. Até mesmo as ideias mais originais, criativas e extraordinárias só podem existir como combinações e transformações de informações que aprendemos anteriormente. (Fonte: Notas da palestra One Myth and Two Truths: Nurturing Competent Communicators). Ou seja, para escrever bem, a criança precisa ter dentro de si uma espécie de banco de dados linguístico a que possa recorrer. É como alguém que, ao longo dos anos, vai reunindo tesouros em um baú para abrir quando chegar a hora de usá-los: palavras, construções, expressões, imagens e maneiras de organizar o pensamento que, mais tarde, poderão ser resgatadas para a produção de seus próprios textos. E de onde vem esse repertório? Em outras palavras, o que nossas crianças estão ouvindo? Essa é uma pergunta que vale a pena fazer. Pense no que uma criança ouve ao longo de um dia comum. Grande parte de sua linguagem vem de três fontes principais: interações com crianças da mesma idade, a mídia e as conversas cotidianas . A convivência com outras crianças é, sem dúvida, importantíssima. Mas crianças da mesma idade conversando entre si dificilmente oferecem os modelos linguísticos mais elaborados de que estamos falando. Entre amigos, muitas vezes, “para bom entendedor, meia palavra basta” : um gesto completa a frase, uma expressão substitui uma explicação inteira e o contexto faz boa parte do trabalho. A mídia também pode ocupar uma parcela significativa do tempo das crianças. E, mesmo quando os pais limitam as telas e selecionam cuidadosamente o que os filhos assistem, um desenho animado dificilmente oferecerá a mesma riqueza e variedade de linguagem de uma boa obra literária. Isso se torna ainda mais evidente quando comparamos esse cenário ao consumo indiscriminado de vídeos curtos, em que a criança passa de um conteúdo a outro em busca de novos estímulos. Por isso, não podemos esperar que a mídia, mesmo quando bem escolhida, faça o trabalho que cabe à literatura. Embora, em nosso imaginário romântico, idealizemos uma mesa de jantar preenchida por poesia e conversas profundas enquanto a lareira crepita ao fundo, sejamos honestos: boa parte da linguagem que nossos filhos ouvem em casa é prática e cotidiana — “guarde os brinquedos”, “não puxe o cabelo da sua irmã”, “vá escovar os dentes”. E está tudo bem: como dizem, é só a vida acontecendo . Mas precisamos reconhecer que esses não são padrões muitos elaborados de linguagem. Por isso, precisamos compensar de alguma forma. A importância da leitura em voz alta Se queremos que nossos filhos sejam capazes de usar uma linguagem mais rica, precisamos dar a eles a oportunidade de serem expostos a essa linguagem. É aqui que entra algo de que falamos bastante por aqui: a leitura em voz alta . Quando lemos para uma criança, não estamos apenas contando uma história. Estamos oferecendo a ela palavras, frases, construções e modos de expressão que não fazem parte do seu dia a dia. E existe uma vantagem especialmente importante: podemos ler para nossos filhos livros que estão acima do nível de leitura independente deles . Uma criança pode não conseguir ler sozinha um romance com vocabulário mais complexo, mas pode perfeitamente compreendê-lo quando um adulto lê em voz alta. Assim, sua compreensão e seu repertório podem avançar muito além daquilo que ela conseguiria produzir ou ler sozinha naquele momento. Por isso, um dos erros que podemos cometer é abandonar a leitura em voz alta assim que nossos filhos aprendem a ler com autonomia . “Ele já sabe ler. Agora pode ler sozinho.” Pode, sim. Mas isso não significa que devemos parar de ler para ele. Pudewa acrescenta que, quando deixamos de ler para as crianças, também deixamos de ter oportunidades para conversar sobre palavras e suas nuances, expressões idiomáticas, referências culturais e significados históricos. E as crianças perdem algo ainda mais valioso do que o próprio enriquecimento linguístico proporcionado pela leitura em voz alta: perdem a oportunidade de desenvolver a atenção, de experimentar a força dramática que um bom leitor pode transmitir e até mesmo de cultivar o hábito de fazer perguntas sobre aquilo que ouviram. Mas sejamos sinceros: quanto tempo do dia seu filho realmente passa ouvindo você ler? Se ele permanece acordado por cerca de quinze horas, você consegue ler para ele durante quinze minutos? Trinta minutos, quando muito? Isso já é valioso. Mas talvez não seja suficiente para oferecer todo o repertório que desejamos. Audiolivros: nossos aliados! Uma das grandes vantagens dos audiolivros é justamente a flexibilidade. Eles podem acompanhar a família no carro, durante uma viagem, enquanto a criança desenha, faz um trabalho manual ou brinca. Não substituem a leitura em voz alta feita pelo pai, pela mãe ou pelo professor — especialmente pela riqueza da experiência compartilhada —, mas podem ampliar enormemente a quantidade de linguagem de qualidade que a criança escuta ao longo do dia . É verdade que existem aplicativos e serviços de assinatura com acervos excelentes, como a Audible, da Amazon — que inclui títulos como A Saga Wingfeather, de Andrew Peterson, e diversos audiolivros de O Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato —, e o Teller , da Brasil Paralelo — que reúne, entre outros títulos, os audiolivros m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s do antigo Clubinho Literário. Mas não é preciso necessariamente assinar um serviço para começar. Há muitos audiolivros gratuitos disponíveis no YouTube , e alguns deles estão entre os nossos favoritos. Quer conhecer a nossa lista organizada por faixa etária? Fique de olho na próxima postagem aqui do blog. 💚
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