Por que seu filho mente? 

Você sabe por que seu filho mente? Conheça os 6 tipos de mentira e suas respectivas curas conforme descritas por Charlotte Mason em seu livro Parents and Children (Pais e Filhos): 

 

1 - A mentira escrupulosa (pseudofobia) 

 

Imagine que Marcela deixou cair um lápis durante a prova de matemática e, acidentalmente, olhou na direção da prova de uma colega. Por ter visto de relance a resposta da amiga, entende que “colou na prova”. Uma comparação das duas respostas indica claramente que não ela não copiou a resposta, mas por certo escrúpulo de consciência, Marcela acaba contando uma mentira (colei na prova) para salvar-se de outra. 

 

No capítulo 19 de Parents and Children Charlotte Mason diz que a causa desse tipo de dificuldade é de ordem física, e não moral. Ela diz ainda que “é mais comum entre meninas do que meninos, entre crianças educadas em casa do que na escola. Interesses saudáveis, vida ao ar livre, trabalhos manuais cativantes e atrativos, ocupar-se em geral com coisas e não com pensamentos, e evitar qualquer palavra ou sugestão que possa levar à autoconsciência e à introspecção, provavelmente ajudarão muito o pequeno sofredor a atravessar esse difícil estágio da vida”. 

 

2 - A mentira heroica

 

Agora, imagine a seguinte cena:  Tom e seu melhor amigo Pedro estão brincando quando, sem querer, Pedro derrama um pote de tinta no chão. “Quem fez isso?” − pergunta a professora − “Fui eu” − responde Tom para proteger Pedro. Ele não mente por amor à mentira, mas por falta de equilíbrio moral. 

“Fidelidade a um amigo é uma virtude bem mais alta aos olhos de Tom do que uma mera sinceridade árida. E como Tom poderia saber, se não lhe foi ensinado, que é ilícito estimar uma virtude às custas de outra?” (Charlotte Mason, Parents and Children). A cura para esse tipo de mentira é dar ideias claras e objetivas sobre temas éticos para as crianças. 

 

3 - A mentira para os inimigos 


Enquanto a “mentira heroica” impõe certo risco para o mentiroso, que arrisca a pele para salvar o amigo, mentir para os inimigos não traz risco imediato para aquele que mente. A causa desse tipo de mentira é o relativismo, comum entre as crianças, e que as faz acreditar que se uma mentira é mentira ou não depende de com quem você está falando. 

Tendemos a acreditar que a inocência é uma virtude e que, por isso, as crianças acabam relegadas a uma certa ignorância moral. Aqui, mais uma vez, a cura para esse tipo de mentira é instruir às crianças corretamente, de modo que não fiquem como Pilatos perguntando-se “o que é a verdade?” 

 

4 - A mentira egoísta 


Essa é a mentira que é instrumento do egoísmo e não pode ser separada dele. Para que seja curada a mentira, tem de ser curado o vício que lhe deu origem. Qualquer outro tipo de tratamento superficial seria inútil. Para cortar o mal pela raiz, nada menos que “um impulso forte e heroico, iniciando e sustentado pela graça de Deus livrará o menino ou menina do vício do egoísmo cuja serva é a mentira. Mas, não nos desesperemos: todo menino e menina está aberto a tal impulso, é capaz de esforço heroico. Oração e paciência, e um olhar atento às oportunidades de transmitir ideias que estimulem − nada disso será em vão” (Charlotte Mason, ibidem). 

 

Miss Mason diz ainda que todo menino e toda menina são heróis em potencial, e que não há infidelidade pior do que aquela que nos faz abandonar a esperança de emendar qualquer falha de caráter, por pior que seja, em quem ainda é jovem. É que “é fácil dar direção às tendências de uma criança” diz a autora, mas por outro lado “é agonizantemente difícil alterar o conjunto caráter de um homem”. 

 

5 - A mentira imaginativa 


Há crianças que são tão imaginativas que podem chegar a acreditar nas histórias que inventam. Podem ir ao parque e voltar pra casa contando mil e uma aventuras que não poderiam ter acontecido na realidade. Charlotte Mason diz que “os pais e não a criança cometeram a falta. A probabilidade é que a imaginação faminta da criança não esteja sendo frequente e devidamente alimentada com o alimento que lhe é necessário, com contos de fadas nos primeiros anos, e romances mais tarde”. 

 

A cura, por incrível que pareça, é “dar livre passagem, morada abundantemente alegre, no reino do faz-de-conta". Quando a criança está com a imaginação desnutrida, acaba misturando seu imaginário com o mundo ao seu redor. Miss Mason diz também que, “quanto mais imaginativa a criança, mais essencial é que as fronteiras do reino do faz-de-conta sejam claramente definidas, e que se insista na sinceridade exata em tudo o que se refere ao mundo mais estreito em que os adultos vivem”. 

Para curar a mentira imaginativa são necessárias lições diárias de como responder com exatidão. Cada dia oferece dezenas de oportunidades para praticar. Basta que os pais insistam na veracidade sem horrorizar-se ou indignar-se diante de respostas distorcidas, mas encorajando amorosamente a criança que consegue dar uma resposta longa com sinceridade, quando é capaz de contar exatamente o que fulano disse ou o que aconteceu na festa do amigo sem acréscimos que tornem o relato mais interessante. 

 

6 - Pseudomania 


Essa condição patológica faz com que a criança minta sobre tudo o tempo todo, mesmo em coisas pequenas e sem qualquer justificativa. Como se trata de uma questão de saúde mental, as crianças precisam de tratamento, e não de castigos ou punições. No entanto, Charlotte Mason alerta aos pais de que podem e devem prevenir esse tipo de situação: 

“A menina que consegue ganhar estima por ser quem realmente é e pelo que realmente faz, não é tentada a ‘fazer pose’, e o menino que encontrou meios de recarregar plenamente suas energias físicas e mentais, não tem nada em si para desperdiçar com enganações. Esse é um dos casos que mostram o quão importante é, para os pais, familiarizarem-se com a delicada fronteira da natureza humana que toca o material e o espiritual. Como o pensamento espiritual e o cérebro material interagem, como o cérebro e os nervos são interdependentes; como o ar puro e comida saudável afetam as condições do sangue que nutrem os nervos; como os nervos poder tiranizar tudo o que incluímos sob o título de ‘saúde do corpo’; esses são assuntos que os pais devem conhecer para evitar a possibilidade de que a degradação descrita como Pseudomania se estabeleça em qualquer um de seus filhos”. 

 

 Para concluir, a autora nos lembra que “ainda que uma criança possa ter mais aptidão que outra, nem a sinceridade e nem a tabuada nos chegam naturalmente. A criança que aparenta ser perfeitamente sincera só o é porque foi constantemente treinada para a sinceridade, ainda que indireta e inconscientemente. É mais importante cultivar o hábito da verdade do que lidar com o acidente da mentira”. 


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Eu quero aproveitar esta oportunidade
Por Barbara Lores 10 de setembro de 2026
No último texto aqui do blog, falamos sobre os benefícios da leitura em voz alta e como os audiolivros podem ser nossos aliados nessa hora. Se você ainda não leu, confira aqui Quer que seu filho escreva bem? Comece pelo que ele ouve. Hoje, trazemos as nossas indicações de audiolivros por faixa etária, afinal, não são só os pequenos que podem aproveitar desse recurso tão presente em nosso cotidiano. Confira as nossas indicações: Para os pequeninos — 2 a 5 anos Histórias mais curtinhas, com diferentes narradores e, em alguns casos, músicas que tornam a experiência ainda mais divertida para iniciantes. Coleção Disquinho As Mais Belas Histórias Infantis (Conte Outra Vez) Clássicos Disney Para Ler e Ouvir Para os não tão pequenos — 4 a 8 anos Aqui já entram histórias mais longas, muitas vezes divididas em capítulos. São ótimas para acompanhar durante alguns dias e criar o hábito de ouvir uma narrativa mais extensa. Peter Pan — J. M. Barrie As Crônicas de Nárnia — C. S. Lewis A Fantástica Fábrica de Chocolate — Roald Dahl Matilda — Roald Dahl No Mundo do Infinitamente Pequeno Para os crescidinhos — a partir de 9 anos Para esta faixa, podemos começar a oferecer enredos mais complexos, com narrativas que exigem maior atenção aos detalhes do contexto. A Volta ao Mundo em 80 Dias — Júlio Verne O Hobbit — J. R. R. Tolkien E aqui vai uma observação: apesar de estar nesta seção, O Hobbit costuma conquistar também crianças menores , especialmente quando já estão familiarizadas com histórias mais longas. O Jardim Secreto — Frances Hodgson Burnett Mestre Gil de Ham — J. R. R. Tolkien A Princesinha — Frances Hodgson Burnett Dica bônus Se você costuma ouvir audiolivros no carro, uma opção prática é o YouTube Premium , que permite baixar os conteúdos para ouvir offline, sem consumir seu pacote de internet. E não, não estamos ganhando nada para fazer propaganda aqui. É só uma dica mesmo! 😄 Porque, convenhamos, poucas coisas são mais frustrantes do que uma propaganda interrompendo a história justamente na hora mais interessante, não é?  E você? Que outro audiolivro incluiria nesta lista? Conte nos comentários — queremos descobrir novos tesouros para acrescentar à nossa coleção!
Por Barbara Lores 14 de agosto de 2026
Queremos que nossos filhos tenham um repertório amplo, um vocabulário rico e sejam comunicadores competentes. Queremos que saibam escrever bem, expressar suas ideias com clareza e encontrar as palavras certas para dizer aquilo que pensam. Mas, às vezes, esquecemos de uma verdade bastante simples: para algo sair da boca ou do papel, primeiro precisa estar dentro da cabeça. Não posso pedir a alguém que fale mandarim se nunca teve contato com o mandarim. Da mesma forma, não podemos esperar que uma criança produza textos com uma linguagem rica e sofisticada se ela ainda não teve a oportunidade de ouvir e armazenar bons modelos de linguagem. É o famoso input antes do output : aquilo que a criança produz depende, em grande medida, do repertório que foi construindo. Bons leitores se tornam bons escritores? Talvez você já tenha ouvido esta frase: “Quem lê bem escreve bem.” Existe uma verdade aí. Crianças que leem bastante certamente têm uma vantagem importante no desenvolvimento da escrita. Mas transformar essa ideia em uma regra — como se a boa leitura levasse naturalmente e inevitavelmente a uma boa escrita — é um equívoco. Basta observar uma sala de aula. É perfeitamente possível encontrar crianças que leem com fluência, compreendem bem aquilo que leem e, ainda assim, têm dificuldade para escrever com clareza, correção e riqueza de linguagem. Isso acontece porque ler e escrever são habilidades relacionadas, mas não idênticas . Andrew Pudewa, fundador do Institute for Excellence in Writing (IEW), esclarece que a ntes de tudo, precisamos considerar o que significa ser um bom escritor. Ser competente na escrita significa ser capaz de comunicar ideias por meio de uma linguagem clara, correta e adequadamente sofisticada. Brilhantismo, criatividade e originalidade são ideais desejáveis, mas estão muito além daquilo que chamamos de competência. Competência significa possuir as habilidades básicas necessárias para ter êxito na vida acadêmica, profissional e no mundo do trabalho. Diante da grande carência dessas habilidades, mais do que nunca, a competência deve ser o principal objetivo de pais e professores. Por definição, escritores competentes são capazes de usar a linguagem de maneira correta e eficaz. Há um fato simples e imutável sobre o cérebro humano: não podemos tirar dele aquilo que não estava lá desde o início. À parte qualquer inspiração sobrenatural, os seres humanos — e as crianças, em particular — não conseguem produzir pensamentos ou conceitos que antes não tenham experimentado e armazenado. Em outras palavras, não podemos pensar um pensamento que não possuímos previamente. Até mesmo as ideias mais originais, criativas e extraordinárias só podem existir como combinações e transformações de informações que aprendemos anteriormente. (Fonte: Notas da palestra One Myth and Two Truths: Nurturing Competent Communicators). Ou seja, para escrever bem, a criança precisa ter dentro de si uma espécie de banco de dados linguístico a que possa recorrer. É como alguém que, ao longo dos anos, vai reunindo tesouros em um baú para abrir quando chegar a hora de usá-los: palavras, construções, expressões, imagens e maneiras de organizar o pensamento que, mais tarde, poderão ser resgatadas para a produção de seus próprios textos. E de onde vem esse repertório? Em outras palavras, o que nossas crianças estão ouvindo? Essa é uma pergunta que vale a pena fazer. Pense no que uma criança ouve ao longo de um dia comum. Grande parte de sua linguagem vem de três fontes principais: interações com crianças da mesma idade, a mídia e as conversas cotidianas . A convivência com outras crianças é, sem dúvida, importantíssima. Mas crianças da mesma idade conversando entre si dificilmente oferecem os modelos linguísticos mais elaborados de que estamos falando. Entre amigos, muitas vezes, “para bom entendedor, meia palavra basta” : um gesto completa a frase, uma expressão substitui uma explicação inteira e o contexto faz boa parte do trabalho. A mídia também pode ocupar uma parcela significativa do tempo das crianças. E, mesmo quando os pais limitam as telas e selecionam cuidadosamente o que os filhos assistem, um desenho animado dificilmente oferecerá a mesma riqueza e variedade de linguagem de uma boa obra literária. Isso se torna ainda mais evidente quando comparamos esse cenário ao consumo indiscriminado de vídeos curtos, em que a criança passa de um conteúdo a outro em busca de novos estímulos. Por isso, não podemos esperar que a mídia, mesmo quando bem escolhida, faça o trabalho que cabe à literatura. Embora, em nosso imaginário romântico, idealizemos uma mesa de jantar preenchida por poesia e conversas profundas enquanto a lareira crepita ao fundo, sejamos honestos: boa parte da linguagem que nossos filhos ouvem em casa é prática e cotidiana — “guarde os brinquedos”, “não puxe o cabelo da sua irmã”, “vá escovar os dentes”. E está tudo bem: como dizem, é só a vida acontecendo . Mas precisamos reconhecer que esses não são padrões muitos elaborados de linguagem. Por isso, precisamos compensar de alguma forma. A importância da leitura em voz alta Se queremos que nossos filhos sejam capazes de usar uma linguagem mais rica, precisamos dar a eles a oportunidade de serem expostos a essa linguagem. É aqui que entra algo de que falamos bastante por aqui: a leitura em voz alta . Quando lemos para uma criança, não estamos apenas contando uma história. Estamos oferecendo a ela palavras, frases, construções e modos de expressão que não fazem parte do seu dia a dia. E existe uma vantagem especialmente importante: podemos ler para nossos filhos livros que estão acima do nível de leitura independente deles . Uma criança pode não conseguir ler sozinha um romance com vocabulário mais complexo, mas pode perfeitamente compreendê-lo quando um adulto lê em voz alta. Assim, sua compreensão e seu repertório podem avançar muito além daquilo que ela conseguiria produzir ou ler sozinha naquele momento. Por isso, um dos erros que podemos cometer é abandonar a leitura em voz alta assim que nossos filhos aprendem a ler com autonomia . “Ele já sabe ler. Agora pode ler sozinho.” Pode, sim. Mas isso não significa que devemos parar de ler para ele. Pudewa acrescenta que, quando deixamos de ler para as crianças, também deixamos de ter oportunidades para conversar sobre palavras e suas nuances, expressões idiomáticas, referências culturais e significados históricos. E as crianças perdem algo ainda mais valioso do que o próprio enriquecimento linguístico proporcionado pela leitura em voz alta: perdem a oportunidade de desenvolver a atenção, de experimentar a força dramática que um bom leitor pode transmitir e até mesmo de cultivar o hábito de fazer perguntas sobre aquilo que ouviram. Mas sejamos sinceros: quanto tempo do dia seu filho realmente passa ouvindo você ler? Se ele permanece acordado por cerca de quinze horas, você consegue ler para ele durante quinze minutos? Trinta minutos, quando muito? Isso já é valioso. Mas talvez não seja suficiente para oferecer todo o repertório que desejamos. Audiolivros: nossos aliados! Uma das grandes vantagens dos audiolivros é justamente a flexibilidade. Eles podem acompanhar a família no carro, durante uma viagem, enquanto a criança desenha, faz um trabalho manual ou brinca. Não substituem a leitura em voz alta feita pelo pai, pela mãe ou pelo professor — especialmente pela riqueza da experiência compartilhada —, mas podem ampliar enormemente a quantidade de linguagem de qualidade que a criança escuta ao longo do dia . É verdade que existem aplicativos e serviços de assinatura com acervos excelentes, como a Audible, da Amazon — que inclui títulos como A Saga Wingfeather, de Andrew Peterson, e diversos audiolivros de O Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato —, e o Teller , da Brasil Paralelo — que reúne, entre outros títulos, os audiolivros m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s do antigo Clubinho Literário. Mas não é preciso necessariamente assinar um serviço para começar. Há muitos audiolivros gratuitos disponíveis no YouTube , e alguns deles estão entre os nossos favoritos. Quer conhecer a nossa lista organizada por faixa etária? Fique de olho na próxima postagem aqui do blog. 💚
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