[Contos Politicamente Incorretos] Aprendendo a voar

Confira "Aprendendo a Voar", o primeiro conto da série C.P.I.: Contos Politicamente Incorretos, de autoria de Barbara Lores


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Era pra ser ontem a consulta com a psicóloga indicada pela escola, mas como o Bruno passou mal tivemos que remarcar. Ainda bem que consegui o encaixe, porque a agenda desses influencers enche rápido, né. Já faz algum tempo que estou adiando essa consulta, mas como ele tem piorado não pude mais postergar.


Nem sei bem por onde começar a contar o que tem acontecido, mas como a escola disse que esse tipo de caso precisa de intervenção imediata é melhor começar a pensar no que vou dizer pra psicóloga. Pelo Maps faltam quinze minutos pra chegar lá.


Ainda bem que vai ser presencial, porque não aguentava mais essas consultas online. Hum... Deixa eu ver. Acho que dá pra começar contando daquele dia, quando cheguei do trabalho e fui buscar o Bruno no integral. Ele estava bem animado, porque era o dia da fantasia para as turmas da educação infantil.


Ah, mas antes, é melhor eu explicar o contexto. Há uns dois anos ele adorava aquele boneco xerife, então decidiu que devíamos chamá-lo de Woody. Depois, veio a onda do dragão e ele resolveu que se chamava Soluço. De uns tempos pra cá tem me pedido insistentemente que eu o chame por outro nome, Clark Kent. Eu nem sabia que esse era o nome verdadeiro do super-homem, mas ele aprende de tudo na escola.


Então, voltando ao assunto, no dia da fantasia o Clark vinha arrastando sua mochila da liga da justiça com um sorriso de orelha a orelha que fazia craquelar a pintura facial de super-homem.


– Mãe! Hoje foi o melhor dia da minha vida!

– Ah, é? Como foi seu dia, filho? – Abracei-o.

– Me chama de Clark Kent, tá bom? – Ele sussurrou.

– Claro, Clark Kent. – Disse em alto e bom som – Desculpa, eu esqueci! – Sussurrei de volta com olhar de cumplicidade.

– Hoje terminei meu treinamento de herói. Estou preparado para voar!

– Parabéns, fil... Clark! – Aplaudi.

– Está vendo essa capa? Ela é de verdade.

– Que legal! É bem bonita mesmo. Vamos pra casa? Estou pensando em fazer uma pipoquinha com manteiga pra você comer enquanto assiste ao super-homem. Claro que a capa dele não é tão sensacional quanto essa, afinal é só um desenho. A sua é de verdade, né?

– É, sim!


Foi estranho o caminho pra casa depois disso. Ele estava meio quieto, pensativo eu diria. Não pediu pra ouvir a música tema de nenhum herói no Spotify. Enquanto subíamos o elevador até o décimo oitavo andar, ficou só mexendo na capa, analisando a costura.


Chegamos em casa e, depois do banho, ele foi direto pra sala encontrar o pote de pipoca quentinha que já estava esperando no sofá. Antes de ligar o desenho, porém, veio até mim:

– Mãe, você tem medo de que?

– Hum... Não sei, filho. Disse, enquanto terminava de colocar o arroz no fogo.

– É Clark, mãe. – Suspirou.

– Verdade. Desculpe Clark, esqueci de novo... É que essa hora minha cabeça já não funciona mais tão bem.

– Você tem medo de altura?

– Ah... Tenho, eu acho. Sei lá, acho que já me acostumei com esse apartamento. No início eu achava esquisito ir até a varanda, não gostava... Mas, a gente se acostuma com cada coisa, né? Hoje em dia acho normal.

– Eu tenho muito medo de altura, mãe.

– Sério, filho? Mas, você sempre vai até a varanda, senta no chão pra brincar de lego e tudo...

– Eu também não sabia que tinha esse medo, mas agora acho que ele sempre esteve lá. Não sei explicar. Acho que não vou conseguir voar.

Sequei as mãos no pano de prato e virei pra ele, que estava visivelmente preocupado.

– Filho, que bobagem. Eu acho que você está levando muito a sério essa brincadeira.

– Clark! – Disse ele num ímpeto de fúria que derrubou de um só golpe as lágrimas que seus olhos vermelhos não eram mais capazes de conter  – O meu nome é Clark Kent!

Ele saiu batendo as portas e, depois daquele dia, o Bruno não me chamou mais de mãe.


Faz uns três meses que isso aconteceu, e desde então tenho notado meu filho cada vez mais introspectivo, calado mesmo. Ele nunca foi desse jeito. Mas, olha, eu acho que é só comigo... No colégio ele continua bem comunicativo. Aliás, ontem quando fui buscá-lo percebi que a professora me olhava com certo desdém enquanto eu desejava o meu já tradicional "Boa aula, Bruninho!" Ela sacudiu a cabeça e deu de ombros para depois saudá-lo com seu inovador "Bem-vindo, Clark!"


Acho estranho incentivarem tanto essa brincadeira dele, afinal a semana da fantasia já passou faz tempo e ele continua usando aquela capa vermelha. Disseram até que vão incluir no uniforme! Lembro que na minha época não era assim, não. Minha mãe dizia que eu tinha que ir a escola pra aprender a ser gente, mas parece que isso está meio ultrapassado. Formar gente é pouco pra essa nova geração de professores. Bom mesmo é formar heróis.


Eu até entendo que esse mundo precise de heróis, mas nunca pensei que meu filho seria "o escolhido". Até dizer isso soa engraçado, mas é rir pra não chorar. Acredita que outro dia a coordenadora me disse que não foi o Clark que escolheu ser herói? Falou que não é uma opção. Segundo ela, algumas crianças nascem assim e eu não posso ficar tolhindo meu filho, impedindo-o de voar.


Eu acho uma palhaçada esse negócio de incluir capa no uniforme. Já falei com a secretária, com a coordenadora, com outros pais no grupo do WhatsApp... Parece que não entendem. Todos são unânimes e concordam com as mudanças. Espontaneidade é o que conta, vamos incentivar a criatividade das crianças. Sei. Acho que todo mundo nessa escola me olha como uma espécie de tirana e, pra ser sincera, às vezes me pergunto se não seria verdade. É aquela história: quando nasce uma mãe, nasce uma culpa.


Enfim, já está quase na hora da consulta. Ainda bem que não atrasei. Aqui estou eu, subindo o elevador para conversar com uma psicóloga sobre o meu filho que insiste que é o super-homem. Vamos lá. Seria bom se o Bruno estivesse aqui também, talvez a psicóloga pudesse me ajudar a explicar pra ele que existe certa distância entre o que imaginamos e a realidade.


O problema é que a direção do colégio foi taxativa: eu devia vir sozinha enquanto ele participava da oficina de autoconhecimento de quinta-feira a tarde. É pra criança descobrir quem é, "suas aptidões e potencialidades", dizem. Inventam cada uma! Tem três meses que esse projeto começou e ainda não notei nenhuma mudança. Minto. Ele começou a imitar o sotaque da professora, que é paulistana. Preferia que ele estivesse aprendendo inglês, mas... Ih, chegou minha vez.


Por trás dos óculos vermelhos, me aguarda ansiosa a Dra. influencer, com mais de 100K seguidores no currículo. Estou confiante que agora alguém vai entender o que estou dizendo.

– Bem-vinda, mãezinha! – Já começou mal. Detesto quando me chamam de mãezinha. Meu pai já dizia "dê um real, mas não dê intimidade".

– Bom dia, Dra. Novelle.

– Como está se sentindo mãezinha?

– Tudo indo... Vim por indicação do Colégio Antonio Gramsci. Meu filho está tendo alguns problemas de comportamento e preciso de ajuda pra conduzir melhor a situação.

– Certo... Que tipo de problemas?

– Mudou de nome, quer que todo mundo chame ele de Clark Kent. Inventou que é o super-homem, só tira a capa pra tomar banho... Se recusa a me chamar de mãe e, pra você ter uma ideia, ontem mesmo ele disse que não pode comer qualquer coisa verde, porque essa cor indica contaminação por criptonita!

– O quanto isso incomoda você?

– Bastante! E o pior é que parece que só eu estou vendo isso.

– Querida, eu entendo. Deve ser muito difícil pra ele. Que bom que você está aqui para encontrar ajuda. Vamos vencer isso juntas.

– Obrigada, Dra.

– Você sempre manifestou essa fobia de heróis?

–Han? Não, eu... Não sei se compreendi, mas não tenho medo de heróis, não.

– Veja, o primeiro passo para a cura é verbalizar. Precisamos chamar sua doença pelo nome certo: Heroifobia.

– Eu não tenho nada disso. Vim procurar ajuda pro meu filho, ele...

– Vejo que você ainda está na fase da negação. – Interrompeu ela – Assim não faremos muito progresso, mãezinha. Eu estava com uma expectativa alta, afinal não é toda mãe heroifóbica que busca terapia para aceitar o filho como ele é.

– Como posso aceitar que meu filho perca a noção da realidade?

– A realidade é uma construção social. Pare de tentar reproduzir o seu modelo ideal de comportamento na vida do seu filho. Você não acha que a sociedade já é um ambiente hostil demais para heróis como ele? Dê seu amor, seu carinho, não rejeite mais ele... É só uma criança precisando do seu apoio.

– Eu amo meu filho, não tenha dúvidas. E dou todo o meu apoio quando ele precisa. Nesse caso, acho que a melhor forma de apoiá-lo é mostrar a ele quem ele é de verdade. A escola deveria estar ajudando nisso.

– Você precisa compreender que a identidade do seu filho deve ser acolhida e respeitada, mesmo que não esteja alinhada à sua visão de mundo.

– Acho que vocês não estão entendendo o que está acontecendo. Ele é uma criança criativa, já se identificou com outros personagens antes, essa história de Clark Kent vai passar.

– Quantos anos ele tem?

- Cinco!

- Tão pequeno e tão decidido! É uma pena que você continue reproduzindo essa mentalidade binária.

– Dra., eu respeito a liberdade das consciências, mas meu filho não tem maturidade pra escolher ser herói.

– Não se trata de uma escolha. Ele sempre foi herói, só não tinha tornado pública a sua identidade. Pelo que estou vendo, ele devia ter medo de que você não o aceitasse.

– Mas, eu já disse que ele se identificou com vários personagens antes desse... Se ele quiser ser um cachorro devo passar a alimentá-lo com ração?

– Claro que não. Não precisa exagerar. Veja, as rações são muito industrializadas. Sugiro uma opção mais natural, orgânica. Você conhece a Veganimal? A dona é uma amiga minha. Recomendo muito.

– Vou lembrar desse nome - Me levantei e peguei a bolsa. - Muito obrigada Dra., mas preciso ir buscar o Clark Kent agora.

– Isso, esse já é um ótimo primeiro passo. Chame-o como ele gostaria de ser chamado. Até mais!


Até jamais. Enquanto desço o elevador sinto minha cabeça girar. Será que loucura pode ser contagiosa? Está na hora de ir buscar o Bruno. Tem algo de muito errado nisso tudo. Meu Deus, me ajude a salvar meu filho dessa gente. Chego no colégio. Mandam chamar o Bruno, mas não o encontram na sala. Deve estar no banheiro. Aguardo. Nada ainda. Dizem que vão procurá-lo no parquinho. Nada lá também.


Ignoro as sugestões de que eu espere na recepção. Subo as escadas. Não está nessa sala. Nem naquela. – Bruno?! Filho?! – Já olhei todo o corredor. Subo mais dois lances de escada. Nada. Só falta o último andar. Já estou correndo pelo corredor escuro quando vejo no final um pano vermelho na janela da última sala. Me detenho. Meu coração está na boca, mas não posso emitir nenhum som que possa assustá-lo. A janela está aberta e sem rede de proteção.


Os pés do meu menino já se apoiam no parapeito enquanto seus olhos fechados tentam impedir que o medo atrapalhe seu voo. Eu me aproximo em silêncio e abraço com energia as suas costas, arrancando-o da janela. Suas mãos frias de suor tentam se desvencilhar de mim, mas desço as escadas com ele nos braços e o coloco no banco de trás do carro, sob o olhar atônito das professoras. Tiro a capa do Bruno e atiro pela janela. Estamos indo pra casa.


***


Você já conhece o nosso Clube de Leitura? Temos encontros semanais para crianças, jovens e adultos que querem cultivar amizades literárias enquanto discutem grandes livros pelo método socrático.


Trabalhamos, através do diálogo, a arte de fazer nascer ideias, com o objetivo de que cada aluno aprenda a pensar por si mesmo e a descobrir o sentido profundo dos textos, descobrindo neles exemplos de virtude.


CONHEÇA O CLUBE DE LEITURA
Por Barbara Lores 10 de setembro de 2026
No último texto aqui do blog, falamos sobre os benefícios da leitura em voz alta e como os audiolivros podem ser nossos aliados nessa hora. Se você ainda não leu, confira aqui Quer que seu filho escreva bem? Comece pelo que ele ouve. Hoje, trazemos as nossas indicações de audiolivros por faixa etária, afinal, não são só os pequenos que podem aproveitar desse recurso tão presente em nosso cotidiano. Confira as nossas indicações: Para os pequeninos — 2 a 5 anos Histórias mais curtinhas, com diferentes narradores e, em alguns casos, músicas que tornam a experiência ainda mais divertida para iniciantes. Coleção Disquinho As Mais Belas Histórias Infantis (Conte Outra Vez) Clássicos Disney Para Ler e Ouvir Para os não tão pequenos — 4 a 8 anos Aqui já entram histórias mais longas, muitas vezes divididas em capítulos. São ótimas para acompanhar durante alguns dias e criar o hábito de ouvir uma narrativa mais extensa. Peter Pan — J. M. Barrie As Crônicas de Nárnia — C. S. Lewis A Fantástica Fábrica de Chocolate — Roald Dahl Matilda — Roald Dahl No Mundo do Infinitamente Pequeno Para os crescidinhos — a partir de 9 anos Para esta faixa, podemos começar a oferecer enredos mais complexos, com narrativas que exigem maior atenção aos detalhes do contexto. A Volta ao Mundo em 80 Dias — Júlio Verne O Hobbit — J. R. R. Tolkien E aqui vai uma observação: apesar de estar nesta seção, O Hobbit costuma conquistar também crianças menores , especialmente quando já estão familiarizadas com histórias mais longas. O Jardim Secreto — Frances Hodgson Burnett Mestre Gil de Ham — J. R. R. Tolkien A Princesinha — Frances Hodgson Burnett Dica bônus Se você costuma ouvir audiolivros no carro, uma opção prática é o YouTube Premium , que permite baixar os conteúdos para ouvir offline, sem consumir seu pacote de internet. E não, não estamos ganhando nada para fazer propaganda aqui. É só uma dica mesmo! 😄 Porque, convenhamos, poucas coisas são mais frustrantes do que uma propaganda interrompendo a história justamente na hora mais interessante, não é?  E você? Que outro audiolivro incluiria nesta lista? Conte nos comentários — queremos descobrir novos tesouros para acrescentar à nossa coleção!
Por Barbara Lores 14 de agosto de 2026
Queremos que nossos filhos tenham um repertório amplo, um vocabulário rico e sejam comunicadores competentes. Queremos que saibam escrever bem, expressar suas ideias com clareza e encontrar as palavras certas para dizer aquilo que pensam. Mas, às vezes, esquecemos de uma verdade bastante simples: para algo sair da boca ou do papel, primeiro precisa estar dentro da cabeça. Não posso pedir a alguém que fale mandarim se nunca teve contato com o mandarim. Da mesma forma, não podemos esperar que uma criança produza textos com uma linguagem rica e sofisticada se ela ainda não teve a oportunidade de ouvir e armazenar bons modelos de linguagem. É o famoso input antes do output : aquilo que a criança produz depende, em grande medida, do repertório que foi construindo. Bons leitores se tornam bons escritores? Talvez você já tenha ouvido esta frase: “Quem lê bem escreve bem.” Existe uma verdade aí. Crianças que leem bastante certamente têm uma vantagem importante no desenvolvimento da escrita. Mas transformar essa ideia em uma regra — como se a boa leitura levasse naturalmente e inevitavelmente a uma boa escrita — é um equívoco. Basta observar uma sala de aula. É perfeitamente possível encontrar crianças que leem com fluência, compreendem bem aquilo que leem e, ainda assim, têm dificuldade para escrever com clareza, correção e riqueza de linguagem. Isso acontece porque ler e escrever são habilidades relacionadas, mas não idênticas . Andrew Pudewa, fundador do Institute for Excellence in Writing (IEW), esclarece que a ntes de tudo, precisamos considerar o que significa ser um bom escritor. Ser competente na escrita significa ser capaz de comunicar ideias por meio de uma linguagem clara, correta e adequadamente sofisticada. Brilhantismo, criatividade e originalidade são ideais desejáveis, mas estão muito além daquilo que chamamos de competência. Competência significa possuir as habilidades básicas necessárias para ter êxito na vida acadêmica, profissional e no mundo do trabalho. Diante da grande carência dessas habilidades, mais do que nunca, a competência deve ser o principal objetivo de pais e professores. Por definição, escritores competentes são capazes de usar a linguagem de maneira correta e eficaz. Há um fato simples e imutável sobre o cérebro humano: não podemos tirar dele aquilo que não estava lá desde o início. À parte qualquer inspiração sobrenatural, os seres humanos — e as crianças, em particular — não conseguem produzir pensamentos ou conceitos que antes não tenham experimentado e armazenado. Em outras palavras, não podemos pensar um pensamento que não possuímos previamente. Até mesmo as ideias mais originais, criativas e extraordinárias só podem existir como combinações e transformações de informações que aprendemos anteriormente. (Fonte: Notas da palestra One Myth and Two Truths: Nurturing Competent Communicators). Ou seja, para escrever bem, a criança precisa ter dentro de si uma espécie de banco de dados linguístico a que possa recorrer. É como alguém que, ao longo dos anos, vai reunindo tesouros em um baú para abrir quando chegar a hora de usá-los: palavras, construções, expressões, imagens e maneiras de organizar o pensamento que, mais tarde, poderão ser resgatadas para a produção de seus próprios textos. E de onde vem esse repertório? Em outras palavras, o que nossas crianças estão ouvindo? Essa é uma pergunta que vale a pena fazer. Pense no que uma criança ouve ao longo de um dia comum. Grande parte de sua linguagem vem de três fontes principais: interações com crianças da mesma idade, a mídia e as conversas cotidianas . A convivência com outras crianças é, sem dúvida, importantíssima. Mas crianças da mesma idade conversando entre si dificilmente oferecem os modelos linguísticos mais elaborados de que estamos falando. Entre amigos, muitas vezes, “para bom entendedor, meia palavra basta” : um gesto completa a frase, uma expressão substitui uma explicação inteira e o contexto faz boa parte do trabalho. A mídia também pode ocupar uma parcela significativa do tempo das crianças. E, mesmo quando os pais limitam as telas e selecionam cuidadosamente o que os filhos assistem, um desenho animado dificilmente oferecerá a mesma riqueza e variedade de linguagem de uma boa obra literária. Isso se torna ainda mais evidente quando comparamos esse cenário ao consumo indiscriminado de vídeos curtos, em que a criança passa de um conteúdo a outro em busca de novos estímulos. Por isso, não podemos esperar que a mídia, mesmo quando bem escolhida, faça o trabalho que cabe à literatura. Embora, em nosso imaginário romântico, idealizemos uma mesa de jantar preenchida por poesia e conversas profundas enquanto a lareira crepita ao fundo, sejamos honestos: boa parte da linguagem que nossos filhos ouvem em casa é prática e cotidiana — “guarde os brinquedos”, “não puxe o cabelo da sua irmã”, “vá escovar os dentes”. E está tudo bem: como dizem, é só a vida acontecendo . Mas precisamos reconhecer que esses não são padrões muitos elaborados de linguagem. Por isso, precisamos compensar de alguma forma. A importância da leitura em voz alta Se queremos que nossos filhos sejam capazes de usar uma linguagem mais rica, precisamos dar a eles a oportunidade de serem expostos a essa linguagem. É aqui que entra algo de que falamos bastante por aqui: a leitura em voz alta . Quando lemos para uma criança, não estamos apenas contando uma história. Estamos oferecendo a ela palavras, frases, construções e modos de expressão que não fazem parte do seu dia a dia. E existe uma vantagem especialmente importante: podemos ler para nossos filhos livros que estão acima do nível de leitura independente deles . Uma criança pode não conseguir ler sozinha um romance com vocabulário mais complexo, mas pode perfeitamente compreendê-lo quando um adulto lê em voz alta. Assim, sua compreensão e seu repertório podem avançar muito além daquilo que ela conseguiria produzir ou ler sozinha naquele momento. Por isso, um dos erros que podemos cometer é abandonar a leitura em voz alta assim que nossos filhos aprendem a ler com autonomia . “Ele já sabe ler. Agora pode ler sozinho.” Pode, sim. Mas isso não significa que devemos parar de ler para ele. Pudewa acrescenta que, quando deixamos de ler para as crianças, também deixamos de ter oportunidades para conversar sobre palavras e suas nuances, expressões idiomáticas, referências culturais e significados históricos. E as crianças perdem algo ainda mais valioso do que o próprio enriquecimento linguístico proporcionado pela leitura em voz alta: perdem a oportunidade de desenvolver a atenção, de experimentar a força dramática que um bom leitor pode transmitir e até mesmo de cultivar o hábito de fazer perguntas sobre aquilo que ouviram. Mas sejamos sinceros: quanto tempo do dia seu filho realmente passa ouvindo você ler? Se ele permanece acordado por cerca de quinze horas, você consegue ler para ele durante quinze minutos? Trinta minutos, quando muito? Isso já é valioso. Mas talvez não seja suficiente para oferecer todo o repertório que desejamos. Audiolivros: nossos aliados! Uma das grandes vantagens dos audiolivros é justamente a flexibilidade. Eles podem acompanhar a família no carro, durante uma viagem, enquanto a criança desenha, faz um trabalho manual ou brinca. Não substituem a leitura em voz alta feita pelo pai, pela mãe ou pelo professor — especialmente pela riqueza da experiência compartilhada —, mas podem ampliar enormemente a quantidade de linguagem de qualidade que a criança escuta ao longo do dia . É verdade que existem aplicativos e serviços de assinatura com acervos excelentes, como a Audible, da Amazon — que inclui títulos como A Saga Wingfeather, de Andrew Peterson, e diversos audiolivros de O Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato —, e o Teller , da Brasil Paralelo — que reúne, entre outros títulos, os audiolivros m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s do antigo Clubinho Literário. Mas não é preciso necessariamente assinar um serviço para começar. Há muitos audiolivros gratuitos disponíveis no YouTube , e alguns deles estão entre os nossos favoritos. Quer conhecer a nossa lista organizada por faixa etária? Fique de olho na próxima postagem aqui do blog. 💚
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